Projeto DEDICA é modelo no Brasil no tratamento à crianças e adolescentes vítimas de violência grave e gravíssima

O DEDICA – Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente-PR surgiu em 2004, como um projeto para atendimento à crianças e adolescentes que sofrem violências graves e gravíssimas, por meio do trabalho de profissionais voluntários, dentro do Hospital de Clínicas de Curitiba. O serviço incluía o atendimento interdisciplinar, voluntário, em um dia da semana, às vítimas, responsáveis e agressores – estes últimos quando passíveis de tratamento. No entanto, o serviço foi suspenso em meados de 2014 e muitas crianças e adolescentes ficaram sem atendimento.
Foi aí que, por iniciativa da Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas da UFPR, o projeto foi levado e aprovado pelo CEDCA, o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, em 2013 e 2014. O DEDICA reiniciou seus trabalhos no final de 2016, com uma sede própria a duas quadras do HC, com o objetivo principal de atender crianças e adolescentes vítimas de violência grave e gravíssima, tanto física, como psíquica, sexual e casos de negligência. O programa inclui o tratamento dos responsáveis e agressores e dos encaminhamentos para medidas legais e de proteção, além de manter um programa de educação continuada para o enfrentamento da violência para profissionais que atuam com crianças e adolescentes das mais diversas áreas.
Como funciona o tratamento?
No DEDICA as crianças e adolescentes são encaminhados principalmente pelo Hospital de Clínicas, Conselhos Tutelares, Delegacias e Varas de Proteção e de Crimes contra a Infância e Juventude. Lá elas são levadas aos cuidados da equipe comandada pela doutora Luci Pfeiffer, que tem doutorado em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFPR com o tema da violência contra crianças, defendido em 2011, e é a coordenadora do DEDICA. “O serviço desenvolvido pela equipe multidisciplinar do DEDICA era realizado em um espaço dentro do HC, uma vez por semana, mas a demanda só aumentou nos dez anos de atendimento e o diagnóstico foi o de que havia a necessidade de dar atenção diária às crianças e aos adolescentes vítimas de violências e também às suas famílias e agressores (na violência doméstica)”, conta a Dra. Luci Pfeiffer.
De acordo com a coordenadora do DEDICA, a média tem sido de cinco a oito novos casos graves ou gravíssimos por semana. “Mais de 90% desses casos acontecem dentro de casa, com pai e mãe, ou responsáveis, sendo os maiores agressores. Por isso o tratamento realizado pelas equipes do programa é tão importante para recuperar essas famílias doentes pela violência e dar acolhimento às crianças por meio de tratamento clínico, psicológico, psicanalítico e do serviço social. Esta assistência se estende ao diagnóstico geral da situação de violência, definição das pessoas envolvidas na violência, seja como vítimas, seja como agressores, a serem tratadas, elaboração de laudos e pareceres e embasamento das medidas legais cabíveis a cada caso, quando necessário”, explica a Dra. Luci Pfeiffer.
A partir das primeiras avaliações a vítima, seus responsáveis e agressores (quando passíveis de tratamento), entram para o acompanhamento psicológico ou psicanalítico, em sessões no mínimo semanais. “As primeiras escutas e avaliações são bastante complexas, porque é difícil até imaginar que o mundo adulto possa maltratar tanto seus descendentes ou dependentes. Mas, quando vemos os resultados e a resposta das crianças com a retomada de seu desenvolvimento e alegria de viver, sabemos que interromper o ciclo da violência e tratar das suas razões e danos já causados é o caminho certo. O foco no DEDICA é o enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes, na maioria dos casos reféns indefesos de seus agressores. O programa visa a assistência interdisciplinar, o diagnóstico das situações de violências graves e gravíssimas e a educação continuada sobre o tema, em todas as suas interfaces. Trabalhamos sob os princípios da bioética e sabemos que, em boa parte dos casos, é possível a interrupção da violência e a reestruturação familiar”, enfatiza a coordenadora do programa.

Congressos internacionais
No final de junho e começo de julho a Dra. Luci Pfeiffer participa de dois importantes simpósios internacionais, nos quais vai apresentar ao mundo o trabalho desenvolvido pela equipe do DEDICA. Primeiro em Buenos Aires, no XI Congresso Latino-Americano e do Caribe de Bioética, que acontece de de 22 a 24/06 e em seguida em Paris, de 05 a 08/07, no V Seminário Internacional Transdiciplinar Sobre o Bebê. “Em Buenos Aires minha palestra será focada no Programa DEDICA, sua proposta e o trabalho desenvolvido, bem como a ética necessária dentro do tratamento, por se tratar de casos extremamente delicados, sem que haja um pré-julgamento”, explica a coordenadora.
Já na França ela vai apresentar um trabalho sobre os sinais de alerta na gravidez e primeiros meses de vida dos bebês de ausência ou perda de vínculos mãe/bebê, como um caminho para a violência. Tanto a gestante vai contar através de seus desconforto, dores, manifestações exacerbadas da gravidez, entre outros sinais. Para o bebê resta a insegurança e o desafeto , nascido sem lugar naquela família , como falta de vínculo com a mãe, alteração do sono e choro sem motivo aparente, não aceitação das mamadas, que podem ser indicíos de maus tratos, tanto na gestação quanto nos primeiros dias de vida.

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